O CALOR QUE MATA
Por que as altas temperaturas
causaram 3 000 óbitos na França
causaram 3 000 óbitos na França
Antonio Ribeiro, de Paris
Com reportagem de Ariel Kostman e
Lia Hama
Leitura recomendada pela Profª. Camila
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Fotos
AP
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Enfermeira ajuda idoso, e pacientes lotam um
pronto-socorro em Paris: casas projetadas para reter o calor
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Sob um calor de 38 graus, duas senhoras aguardam o ônibus em
Paris. Enquanto uma delas tenta persuadir seu cãozinho a beber água mineral
pela boca da garrafa, a outra interrompe os movimentos do leque e diz: "O
calor está matando". Chova, faça sol, sob neve ou calor, os parisienses
têm o hábito de reclamar do tempo. Mas desta vez é pura realidade: nas
primeiras duas semanas de agosto, estima-se oficialmente que 3 000 pessoas
tenham morrido na França em consequência da onda de calor que assola a Europa.
Na capital francesa, as temperaturas superaram os 40 graus por dias seguidos. O
Instituto Médico Legal de Paris, com capacidade para 450 corpos em seus
refrigeradores, viu-se forçado a abrir um anexo com 200 lugares suplementares
que foram ocupados em poucas horas. "É uma verdadeira hecatombe",
afirmou o diretor do serviço de urgências do hospital Tenon, Henri Modor, que
apenas na semana passada registrou cinquenta óbitos. O ministro da Saúde,
Jean-François Mattei, classificou o que está acontecendo como uma epidemia. Na
última quarta-feira, o governo adotou o Plano Branco, medida reservada para
ataques terroristas, grandes desastres e epidemias. Inclui a convocação de
médicos que estejam em férias e a mobilização de equipes extras para trabalhar
nos hospitais.
Uma mortalidade tão elevada num espaço de tempo tão curto
dificilmente ocorre mesmo em epidemias graves. A Sars, a pneumonia atípica que
pôs o planeta de quarentena na primeira metade do ano, levou seis meses para
infectar mais de 8.000 pessoas e causar 916 mortes. O mais surpreendente é que
o motivo de tantos óbitos seja o calor, visto que não se vê algo assim ocorrer
em países quentes, como o Brasil. Uma explicação é a falta de preparo dos
franceses para conviver com altas temperaturas. Em Paris, prédios e casas são
projetados para conservar o calor e proteger os moradores do frio. Poucos têm
sistema de ar condicionado. Como a onda de calor aconteceu nas férias de verão,
os hospitais estavam trabalhando com equipes reduzidas e não tinham capacidade
para atender tantas vítimas. A maioria delas são idosos com quadro de
desidratação e hipertermia (quando o corpo atinge temperatura acima de 40
graus). No verão, os velhos costumam ser deixados sozinhos em casa pelas
famílias que viajam de férias. "Resgatamos uma octogenária num apartamento
cuja temperatura ambiente era de 36 graus", conta Hervé Thomas,
médico-chefe do serviço de emergência do Corpo de Bombeiros de Paris. Oito de
cada dez mortos tinham acima de 60 anos e muitos foram encontrados inertes no
sofá de casa, com as janelas fechadas.
O corpo humano possui um sistema para regular a própria
temperatura. Quando o calor é excessivo, o sistema nervoso estimula as
glândulas sudoríparas a retirar água e sais minerais do sangue para jogá-los na
pele através dos poros. Em contato com a pele quente, o suor se evapora, o que
ajuda a dissipar o calor. Os vasos se dilatam e o fluxo sanguíneo nas regiões
superficiais do corpo aumenta para que o sangue se resfrie. Nos idosos, o
mecanismo que regula a temperatura corporal já não atua com tanta eficiência. A
capacidade de produzir suor é menor. Isso faz com que a pressão caia, podendo
provocar desmaios ou até um infarto. "Indivíduos acima de 65 anos têm mais
probabilidade de sofrer com a desidratação porque o mecanismo que regula a sede
já está deficiente", explica o médico Antonio Carlos Lopes, presidente da
Sociedade Brasileira de Clínica Médica. O quadro se agrava porque a pessoa
acometida pela desidratação perde líquido, mas não sente necessidade de beber
água. O processo que conduz à morte devido ao calor excessivo é mais acelerado
entre aqueles com problemas cardíacos, respiratórios ou com doenças graves.
A situação na França lembra uma onda de calor que provocou a morte
de 739 pessoas em Chicago, em julho de 1995. Como em Paris, as vítimas eram
idosos, obesos e doentes que moravam sozinhos em residências sem
ar-condicionado. Uma onda de calor ainda pior matou mais de 700.000 pessoas na
França nos verões de 1718 e 1719. O historiador francês Fernand Braudel
sustentava que fatores climáticos, a geografia e o cotidiano da população são
mais importantes na história dos países que a política de seus soberanos.
Braudel, autor do livro O Mediterrâneo, afirma que a monarquia francesa
teria mais chance de ter sobrevivido se as forças da natureza, no caso invernos
rigorosíssimos que devastaram a Europa no fim do século XVIII, não tivessem
destruído as colheitas, espalhando a fome e a miséria. Para o historiador, a
monarquia de Luís XVI poderia não ter sucumbido à Revolução de 1789 se a França
vivesse uma época de climas amenos e boas safras.
O corpo
humano adapta-se bem a qualquer clima, mas precisa de um período de
aclimatização, que, em geral, é de uma semana. Um beduíno que vive no Deserto
do Saara está habituado a altas temperaturas. Isso significa que seu ritmo
cardíaco e respiratório se mantém apropriado, mas que também, por hábito e
cultura, ele conhece os efeitos do calor e não se expõe inadvertidamente ao sol
nos horários mais quentes. Na Espanha, onde são comuns temperaturas acima dos
40 graus, a siesta esvazia as ruas entre o meio-dia e as 16 horas. Apesar
disso, estima-se em 42 o número de habitantes mortos pela onda de calor. Na
Itália, foram sessenta. A maioria das vítimas morava no norte do país, em Milão
e Turim, cidades onde os termômetros marcaram quase 40 graus. A onda de calor
está modificando hábitos em toda a Europa. Em Berlim, os funcionários públicos
são liberados do trabalho se a temperatura ultrapassa os 29 graus. Os alemães
estão aprendendo a fazer a siesta e comer e beber em cafés ao ar livre. Na
Inglaterra, os termômetros chegaram a ficar acima dos 38 graus. O prefeito de
Londres ofereceu um prêmio de 160.000 dólares a quem aparecer com uma solução
para refrigerar a abafadíssima rede de metrô. Em meio a tantas más notícias,
apenas os produtores de vinho parecem ter o que comemorar. Por causa da onda de
calor, especialistas preveem uma safra excepcional, tão boa quanto a de 1947,
uma das melhores da história francesa.
Como visto em: http://veja.abril.com.br/200803/p_086.html


