terça-feira, 20 de maio de 2014

Leitura recomendada


O CALOR QUE MATA
Por que as altas temperaturas
causaram 3 000 óbitos na França
Antonio Ribeiro, de Paris
Com reportagem de Ariel Kostman e Lia Hama

Leitura recomendada pela Profª. Camila
Fotos AP
Enfermeira ajuda idoso, e pacientes lotam um pronto-socorro em Paris: casas projetadas para reter o calor 



Sob um calor de 38 graus, duas senhoras aguardam o ônibus em Paris. Enquanto uma delas tenta persuadir seu cãozinho a beber água mineral pela boca da garrafa, a outra interrompe os movimentos do leque e diz: "O calor está matando". Chova, faça sol, sob neve ou calor, os parisienses têm o hábito de reclamar do tempo. Mas desta vez é pura realidade: nas primeiras duas semanas de agosto, estima-se oficialmente que 3 000 pessoas tenham morrido na França em consequência da onda de calor que assola a Europa. Na capital francesa, as temperaturas superaram os 40 graus por dias seguidos. O Instituto Médico Legal de Paris, com capacidade para 450 corpos em seus refrigeradores, viu-se forçado a abrir um anexo com 200 lugares suplementares que foram ocupados em poucas horas. "É uma verdadeira hecatombe", afirmou o diretor do serviço de urgências do hospital Tenon, Henri Modor, que apenas na semana passada registrou cinquenta óbitos. O ministro da Saúde, Jean-François Mattei, classificou o que está acontecendo como uma epidemia. Na última quarta-feira, o governo adotou o Plano Branco, medida reservada para ataques terroristas, grandes desastres e epidemias. Inclui a convocação de médicos que estejam em férias e a mobilização de equipes extras para trabalhar nos hospitais.
Uma mortalidade tão elevada num espaço de tempo tão curto dificilmente ocorre mesmo em epidemias graves. A Sars, a pneumonia atípica que pôs o planeta de quarentena na primeira metade do ano, levou seis meses para infectar mais de 8.000 pessoas e causar 916 mortes. O mais surpreendente é que o motivo de tantos óbitos seja o calor, visto que não se vê algo assim ocorrer em países quentes, como o Brasil. Uma explicação é a falta de preparo dos franceses para conviver com altas temperaturas. Em Paris, prédios e casas são projetados para conservar o calor e proteger os moradores do frio. Poucos têm sistema de ar condicionado. Como a onda de calor aconteceu nas férias de verão, os hospitais estavam trabalhando com equipes reduzidas e não tinham capacidade para atender tantas vítimas. A maioria delas são idosos com quadro de desidratação e hipertermia (quando o corpo atinge temperatura acima de 40 graus). No verão, os velhos costumam ser deixados sozinhos em casa pelas famílias que viajam de férias. "Resgatamos uma octogenária num apartamento cuja temperatura ambiente era de 36 graus", conta Hervé Thomas, médico-chefe do serviço de emergência do Corpo de Bombeiros de Paris. Oito de cada dez mortos tinham acima de 60 anos e muitos foram encontrados inertes no sofá de casa, com as janelas fechadas.

O corpo humano possui um sistema para regular a própria temperatura. Quando o calor é excessivo, o sistema nervoso estimula as glândulas sudoríparas a retirar água e sais minerais do sangue para jogá-los na pele através dos poros. Em contato com a pele quente, o suor se evapora, o que ajuda a dissipar o calor. Os vasos se dilatam e o fluxo sanguíneo nas regiões superficiais do corpo aumenta para que o sangue se resfrie. Nos idosos, o mecanismo que regula a temperatura corporal já não atua com tanta eficiência. A capacidade de produzir suor é menor. Isso faz com que a pressão caia, podendo provocar desmaios ou até um infarto. "Indivíduos acima de 65 anos têm mais probabilidade de sofrer com a desidratação porque o mecanismo que regula a sede já está deficiente", explica o médico Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica. O quadro se agrava porque a pessoa acometida pela desidratação perde líquido, mas não sente necessidade de beber água. O processo que conduz à morte devido ao calor excessivo é mais acelerado entre aqueles com problemas cardíacos, respiratórios ou com doenças graves.
A situação na França lembra uma onda de calor que provocou a morte de 739 pessoas em Chicago, em julho de 1995. Como em Paris, as vítimas eram idosos, obesos e doentes que moravam sozinhos em residências sem ar-condicionado. Uma onda de calor ainda pior matou mais de 700.000 pessoas na França nos verões de 1718 e 1719. O historiador francês Fernand Braudel sustentava que fatores climáticos, a geografia e o cotidiano da população são mais importantes na história dos países que a política de seus soberanos. Braudel, autor do livro O Mediterrâneo, afirma que a monarquia francesa teria mais chance de ter sobrevivido se as forças da natureza, no caso invernos rigorosíssimos que devastaram a Europa no fim do século XVIII, não tivessem destruído as colheitas, espalhando a fome e a miséria. Para o historiador, a monarquia de Luís XVI poderia não ter sucumbido à Revolução de 1789 se a França vivesse uma época de climas amenos e boas safras.
O corpo humano adapta-se bem a qualquer clima, mas precisa de um período de aclimatização, que, em geral, é de uma semana. Um beduíno que vive no Deserto do Saara está habituado a altas temperaturas. Isso significa que seu ritmo cardíaco e respiratório se mantém apropriado, mas que também, por hábito e cultura, ele conhece os efeitos do calor e não se expõe inadvertidamente ao sol nos horários mais quentes. Na Espanha, onde são comuns temperaturas acima dos 40 graus, a siesta esvazia as ruas entre o meio-dia e as 16 horas. Apesar disso, estima-se em 42 o número de habitantes mortos pela onda de calor. Na Itália, foram sessenta. A maioria das vítimas morava no norte do país, em Milão e Turim, cidades onde os termômetros marcaram quase 40 graus. A onda de calor está modificando hábitos em toda a Europa. Em Berlim, os funcionários públicos são liberados do trabalho se a temperatura ultrapassa os 29 graus. Os alemães estão aprendendo a fazer a siesta e comer e beber em cafés ao ar livre. Na Inglaterra, os termômetros chegaram a ficar acima dos 38 graus. O prefeito de Londres ofereceu um prêmio de 160.000 dólares a quem aparecer com uma solução para refrigerar a abafadíssima rede de metrô. Em meio a tantas más notícias, apenas os produtores de vinho parecem ter o que comemorar. Por causa da onda de calor, especialistas preveem uma safra excepcional, tão boa quanto a de 1947, uma das melhores da história francesa.
 
Como visto em: http://veja.abril.com.br/200803/p_086.html